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 TEXTO SOB MEDIDA PARA O PROJETO "CAPELA EM AÇÃO E A GESTÃO INTEGRADA E PARTICIPATIVA DE POLÍTICAS PÚBLICAS"
Título   SENHORES PASSAGEIROS DO CAPELA PARA...
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Resumo   Esta história trata do trânsito de um coletivo de pessoas, instâncias e instituições. Suas personagens transitam por diferentes terrenos, às vezes sós, às vezes acompanhadas e outras vezes alternando entre si os caminhos percorridos. Mas, atenção! A história não descreve um ataque desorganizado à bola lançada ao centro, nem a fuga desatinada de um inesperado abrupto. É, antes de tudo, uma apologia ao trânsito. Certa vez eu ouvi de uma amiga que os melhores lugares do mundo são os portos, aeroportos e rodoviárias, onde sempre se está de passagem. Estou certo que essa minha amiga não foi entrevistada por Massimo Canevacci, um antropólogo italiano estudioso da contemporaneidade, que nos diz serem as rotas mais importantes que as raízes – ele faz isso brincando com as palavras inglesas routes (rotas) e roots (raízes). Apenas cá entre nós, eu diria que se não são mais importantes, pelo menos são tão importantes quanto. Sempre me impressiona a capacidade que têm os antropólogos de teorizar sobre o que as pessoas – e essa minha amiga entre elas - já sabem. Pessoas comuns já sabem. Mais ainda, os poetas, que chegaram antes ao mundo, e que não são pessoas comuns. Lembro-me de alguns versos de um poema muito conhecido no mundo todo de um poeta espanhol chamado Antonio Callado: “... caminante no hay camino, se hace el camino al andar ...” (caminhante não há caminho, faz-se o caminho ao andar). Já li estes versos em pôsteres, camisetas etc. Os versos, quiçá menos conhecidos, a que me refiro são: “...y al volver la vista atrás se vem las sendas que nunca se hán de volver a pisar...” (ao olhar para trás, vêem-se as trilhas que nunca 2 voltarão a ser pisadas). O que me parece muito interessante é que essas trilhas têm, no espanhol “sendas”, um sentido figurado que quer dizer sistemas de vida. É um pouco isto o que esta história quer contar. Trânsitos variados do interior para o exterior, do coração para a razão, do eu ao outro e tudo isso invertido e, mais, em vai-e-volta e em relação, lado a lado, em oposição... Trata-se de uma história criada e recriada para apaziguar alguns demônios, que entendo serem aquelas questões recorrentes para as quais nunca se encontra uma solução, mas que sempre reaparecem postadas à frente à espera de uma decifração. Para citar apenas alguns deles: a “natureza humana”, conceito caro para pessoas que foram ensinadas a separar o homem da natureza e da cultura; e, a “solidariedade”, em cuja defesa sofremos, inclusive, acreditem ou não, uma tentativa de linchamento moral por parte de um grupo de assistentes sociais. Não importa para esta história como venho tentando lidar com estas duas questões do ponto de vista teórico. Basta apenas indicar que os caminhos passam, respectivamente, por uma discussão paradigmática fomentada por um pensador francês chamado Edgar Morin e pela exploração de uma conceituação sobre a solidariedade feita por um sociólogo polonês chamado Zigmunt Bauman. Um pouco destas questões estão discutidas nos artigos que escrevi com os amigos Denis e Rosilda e que recentemente publicamos. Importa apenas saber que a história é contada sob uma pulsão de juntar, de reunir e de agregar. Disto resulta que o veículo escolhido para contar esse trânsito seja um ônibus. Um coletivo que percorre seu itinerário definido por uma série de pontos. Uma metáfora capaz de fazer-nos refletir sobre semelhanças, diferenças, regularidades, irregularidades, certezas, incertezas conforto, desconforto, segurança, insegurança etc. É a escolha de um ônibus, pois a história trata de um produto coletivo. O nosso ônibus, portanto, foi construído e é resultado de um processo que teve início com a constituição do NICS – Núcleo Intersecretarial da Capela do Socorro, em fevereiro de 2001, e que foi até fevereiro de 2003, quando importantes passos foram dados na implantação da Subprefeitura. Nossa história, porém, vem até o tempo presente, quando nosso ônibus vem percorrendo seu itinerário. Fazem parte de nossa história: personagens que apesar de 3 terem construído o ônibus não subiram nele; personagens que já saíram dele durante o percurso; e, evidentemente, todos aqueles que em pé ou sentados estão a bordo. Ponto Inicial Ainda que sempre tenha havido controvérsia quanto ao ponto final de nosso coletivo, é unânime o entendimento acerca de qual seja o nosso ponto inicial. Manifestações diversas ao longo do período - e inclusive, recentemente, no processo de sistematização da experiência da Capela do Socorro Saudável – têm afirmado que no início estava, e ainda parece estar, o NICS – Núcleo Intersecretarial da Capela do Socorro. Significa dizer que nosso coletivo começa a ser forjado com a aproximação de elementos de diferentes procedências objetivando, provavelmente, a construção de algo novo. Digo isto, pois não havia manuais que orientassem a construção do coletivo; não havia ordem superior que a exigisse; e, não havia reserva de recursos para tal empreitada. Não obstante tudo isto, foram sendo desenvolvidas, paulatinamente, ferramentas, materiais, métodos e ligas que, por fim, deram forma e visibilidade ao nosso ônibus. O que moveu essa “linha de produção”? Até hoje não parece totalmente claro para as personagens que tipo de energia era aquela. Idealismo, oportunidade, desafio, rebeldia, liderança, participação, identificação, poder, pura contingência... Ainda hoje, já percorrendo o itinerário, entre uma parada e outra as personagens se perguntam: como fizemos isto? Por que fizemos isto? Para que fizemos isto? Pode-se supor que algo efetivamente promissor esteve associado à produção deste veículo, mas as personagens não se ocuparam de refletir sobre isso para posteriormente afixarem uma placa com o resultado dessa reflexão na entrada da “fabrica”. Contentaramse apenas com uma emblemática placa com os dizeres “entre sem bater”, que parecia suficientemente esclarecedora com relação à dinâmica do trabalho, de fato, inclusiva e participativa, que lá se realizava. Hoje, e apesar da certeza do condutor – que desde o início dizia que o ônibus era para levar-nos à subprefeitura -, o “zum-zum-zum” no interior do veículo não silencia. O 4 ônibus parece circular sem a placa de destino. As personagens ainda não sabem se a promessa falhou, se a energia que as movia acabou ou se elas mesmas mudaram. E essa dúvida vai acompanhá-las até o destino final, como veremos. O licenciamento do veículo Quase pronto, o veículo foi finalmente submetido aos testes e verificações de rotina que atestariam suas condições de rodagem. Desnecessário seria dizer que para nossas personagens aquele era um veículo acima de qualquer suspeita. Resultado de um esforço coletivo, amado por alguns, visitado por muitos, citado nas mais variadas “rodas” de especialistas e analistas, aquele era um veículo pronto para o uso. Já no início do processo de inspeção foram percebidos sinais das dificuldades que estavam por vir. O instrumental para avaliação não estava preparado para as dimensões do veículo. O projeto apresentava alguns problemas estruturais. A caixa do motor aparecia muito, as portas apesar de amplas foram postas apenas do lado direito, o lugar do cobrador poderia incomodar a circulação interna. As inovações no veículo levavam os analistas a sentirem dificuldade de imaginarem-se como eventuais passageiros. O desconforto por parte dos responsáveis pelo licenciamento crescia à medida que listas de argumentos eram apresentadas de modo a justificar as inovações do projeto. Em meio a uma intensa luta pela validação da estrutura do veículo, foram ouvidas ponderações que já não tratavam mais do projeto em si mesmo. Surgiram questões elementares: por que eles construíram um coletivo desse tipo? Quem mandou eles fazerem isso? Já não há um responsável para fazer isso? Entre tantas outras, tornou-se emblemática para nossas personagens a explicitação de uma avaliação bastante positiva quanto aos avanços presentes no projeto, seguida de uma forte dúvida: não sei se isso é bom ou se isso é ruim para vocês... O resultado final deste processo exigiu adaptações para que o veículo pudesse ser posto em movimento. O impacto sobre a nossa história, entretanto, parece ter sido muito maior do que isso. Ainda hoje parte de nossas personagens carrega esse episódio como uma grande e significativa derrota, à qual atribuem o desconforto com o itinerário que 5 percorrem, com a disposição dos assentos que ocupam ou com a “tralha” em que se transformou nosso veículo. O leitor poderia se perguntar: mas, afinal, o ônibus foi feito para rodar ou para ser licenciado sem modificações? A pergunta parece boa, mas o dito popular sugere “muita calma nessa hora”! Esse episódio representa o primeiro ou o mais significativo encontro das nossas personagens com o campo dialético das relações conflitivas entre o instituinte e o instituído, entre a energia social amarrada e os grupos sujeitados e a energia social livre e os grupos sujeitos, como bem escreveu Paula Carvalho. Foi o momento daquela energia inovadora com liberdade para construir o veículo de seus sonhos se encontrar com o “sistema” de transportes, com as agências reguladoras e normatizadoras, enfim, com a instituição, que é o já instituído e que luta acima de tudo por sua própria conservação. Afinal, não é isso o que, via de regra, exigimos das instituições? Mais ainda, isso foi a oportunidade ou o infortúnio de nossas personagens se descobrirem em meio a uma ação contra-instituicional, com o que isso pode representar quando se quer estar “com”, quando se quer estar “dentro” e não batendo à porta e exigindo que a instituição fale - e fale diferente. Com este processo descobriram o quanto a empreitada até aqui bem sucedida encontraria de dificuldades a serem superadas. O momento exigiu, e ainda hoje se exige, um exame de convicções e um apurado cálculo estratégico. O resultado deste exame e cálculo é o que a história vai contar. Preparar para a partida Com o licenciamento do veículo, muito muda na experiência de nossas personagens. Legalmente autorizados a rodar, chegou, finalmente, a hora de acelerar. Chegou a hora de mostrar a que vieram. Este é um momento particularmente rico de nossa história. São muitos eventos realizados; muitas medidas e precauções assumidas; muitas decisões tomadas. Desde o período preparatório ao início da operação até o presente nossas personagens vêm colecionando avanços na organização do veículo e no seu bom funcionamento. 6 Com seu interior sendo embelezado, e pintado externamente com um logotipo “Capela Saudável”, nosso veículo começou a percorrer seu itinerário movido, sobretudo, por um desejo de demonstrar a si mesmo e aos outros a sua capacidade. De fato, e após quase dois anos, entrar em operação era uma coisa nova, que trouxe consigo novas personagens. Era preciso levar o ônibus da fábrica para a via, era preciso passar do planejamento operacional para a operação propriamente dita, era preciso incluir as novas personagens e facilitar-lhes o acesso à operação, já que para isso vieram. É extremamente necessário neste momento um sincero pedido de desculpas ao leitor pela precária descrição de como as coisas se deram neste curto período de tempo. Atribuo a dificuldade narrativa ao extenso conjunto de medidas técnicas e burocráticas empreendidas, à racionalidade da definição e intersecção de calendários e agendas, enfim, ao nosso projeto que, neste momento, parece ocupar-se apenas de si mesmo. Não consigo olhar para trás, para esse período, sem me perguntar como isso foi possível. Penso sobre isso, não se esqueçam, em meio ao “zum-zum-zum no interior do veículo” e ainda tocado pelo episódio de seu licenciamento e seu impacto sobre nossas personagens. E, ao fazê-lo, nada me ocorre de mais esclarecedor que a teorização de Michel Maffesoli, um sociólogo francês, a respeito da relação entre poder e potência. Grosso modo, nos diz este autor que a potência, uma energia produzida permanentemente pela socialidade, ou seja, pelo espaço dos desejos, das aspirações e das trocas – ou do instituinte, se preferirem - vai se avolumando até atingir ou ser captada e transformada em poder – o espaço do instituído –, ponto a partir do qual tem início um novo ciclo de afastamento seguido de outra reaproximação com o poder. Mais uma vez apenas entre nós, isso me parece algo como uma fábula sobre um moto-perpétuo da história. O período em questão corresponde ao trânsito de nossas personagens entre essas duas irredutíveis energias. Foi o tempo da ofelimidade, isto é, da busca do ótimo. Foi o tempo da racionalidade que reservou assentos às personagens que, por seu lugar na organização, deveriam ter uma visão privilegiada durante o itinerário, e o fez como “discriminação positiva”, sem perceber que as portas do coletivo foram fechadas antes que todos pudessem subir. 7 Como disse o poeta: “... A mão que afaga é a mesma que apedreja...”. Definitivamente, esse período inscreve nossa história no campo do poder. Isso pode ter tornado possível tudo o que se fez. Isso pode explicar uma sensível perda de energia. Isso pode gerar uma nostalgia de outrora. Isso pode ter elevado demais o preço das passagens. As personagens se perguntam até quando poderão pagar por elas. O itinerário Foi em meio a esse quadro que nossas personagens começaram a pensar sobre quais seriam suas paradas, ou pontos, que definiriam seu itinerário. Assoberbadas pelas exigências técnico-burocráticas da operação, insatisfeitas com as modificações exigidas no veículo e ainda com dúvidas sobre o seu lugar no sistema de transporte, tinham grande dificuldade para definir: onde parar? Quem vai entrar no ônibus? Quem deve descer? Imaginavam ter claro pelo menos a primeira parada na “Alameda Saudável”. Pensavam sobre ela ao mesmo tempo em que priorizavam a organização administrativa e financeira do veículo. Na verdade, tinham claro a parada na Alameda Saudável, mas perceberam que isso não era o bastante. Em que ponto da Alameda deveriam parar? Para onde queriam ir as pessoas que aguardavam nos pontos ao largo dela? Quem entraria no ônibus nesses pontos? Isso resultou num intenso abre e fecha de portas gerando incertezas para os que estavam do lado de fora e pensavam em entrar e, inclusive, para os que estavam do lado de dentro e não sabiam se deveriam sair. Este talvez seja o melhor momento de nossa história para revelar o cálculo estratégico e exame de convicções - ou a ausência deles – de nossas personagens, aos quais nos referimos antes. Esse período pode demonstrar que nossas personagens, que sucumbiram ao discurso competente da instituição - e, por isso, produzem e reproduzem sob a égide do poder -, são todas elas vítimas, são todas elas algozes e nenhuma delas é, felizmente, inocente. Digo felizmente, pois responsabilizá-las pelas escolhas, cálculos e decisões tomadas nesse período é manter em suas mãos as decisões futuras. Tendo a crer que os dilemas que nossas personagens têm enfrentado presentemente não dizem respeito ao que está posto externamente às suas práticas cotidianas, ainda que tenham sido fortemente impactadas por isso, mas sim, são obra de um diálogo interno provocado por duas faces tão diferentes de um mesmo projeto. Nossas personagens, evidentemente, têm diferenças entre si, vivem dilemas particulares, sejam singulares ou não, mas é preciso imaginá-las no interior do ônibus e, assim, pensar sobre o que é mais capaz de aproximá-las ou afastá-las, sobre o que conforta ou não a todas, sobre que tipo de saber ou de conhecimento estão produzindo... Penso que a tarefa que está posta, hoje, para nossas personagens é a descoberta e uso de mecanismos de escuta e compreensão do “zum-zum-zum no interior do veículo”. Para este que vos narra a história, o som que chega ao ouvidos parece sugerir que nossas personagens devam discutir a relação, a oposição, a coexistência ou o que quer que seja entre os projetos de mudança e os projetos de poder. E para não concluir - como diz o amigo Marco -, essa pode ser uma chance, apenas uma chance, de nossas personagens, por fim, escreverem a placa com o destino final de nosso ônibus. Embu-Guaçu Agosto/2004
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