Documento sem título
 TEXTO SOB MEDIDA PARA O PROJETO CAPELA SAUDÁVEL
Título   SISTEMATIZAÇÃO DE EXPERIÊNCIA: CAPELA DO SOCORRO / FASE: INTERPRETAÇÃO
Fonte   FAPESP
Coordenador   JUAN CARLOS ANEIROS FERNANDEZ
Resumo   1 SISTEMATIZAÇÃO DE EXPERIÊNCIA: CAPELA DO SOCORRO FASE: INTERPRETAÇÃO Juan Carlos Aneiros Fernandez Eis que estamos então diante de um grande problema: é chegada a hora de interpretarmos a experiência! Recomenda-nos Oscar Jara que nos perguntemos: Por que aconteceu como aconteceu?1 A esta altura do processo de sistematização, quando agrupamos em cinco “nuvens” diferentes todos os elementos indicados na etapa de “recuperação do vivido” e demos início à reflexão a partir de um desses elementos – “nostalgia do NICS” – agrupado, então, à nuvem “descentralização”, devemos nos perguntar: já temos o bastante para entendermos ou, talvez melhor, compreendermos por que aconteceu como aconteceu? Como sabemos, foram listados cerca de setenta e cinco elementos e, ainda que alguns deles tenham sido indiretamente tratados quando nos debruçamos sobre a “nostalgia do NICS”, é plausível crer que ainda há muito sobre o que refletir. De toda forma, um dos 75 elementos foi escolhido e isso deve ter algum significado importante. Algo o diferencia dos demais 74 elementos. Antes de qualquer coisa, portanto, deveríamos tentar compreender por que a “nostalgia do NICS” recebeu esse destaque pelos participantes do processo de sistematização da experiência. Alguns pontos a reflexão parece ter deixado claros. Quando se refere ao NICS o grupo destaca, sobretudo, uma série de aspectos positivos: “protagonismo/identidade”, “contexto de euforia”, “regularidade”, “grupo”, “troca”, “participação”, “produção de sinergia”, “clareza”, “buscava integrar”, “política pública”, “idealismo”, “liderança”, “motivação”. Pode-se perceber claramente uma aproximação de boa parte desses aspectos com os objetivos do assim conhecido “Projeto FAPESP”2. 1 JARA, O “Para sistematizar experiências”. Montevideo: Edición de la M.F.A.L., 1998. 2 Projeto de Pesquisa: CAPELA SAUDÁVEL - GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS INTEGRADAS E PARTICIPATIVAS NA SUBPREFEITURA DE CAPELA DO SOCORRO DA CIDADE DE SÃO PAULO - Programa de Pesquisa em Políticas Públicas (FAPESP) - Ref. Processo n°03/07190-8 - Coordenadora : 2 Além disso, um tipo de relação com o contexto abrangente, representado pelo conjunto do governo municipal e da cidade, fica evidenciado quando se insere o NICS em uma “linha do tempo” que viria a transformá-lo em Governo Local da Capela do Socorro e, este, em Subprefeitura. Sem pretender reduzir a reflexão a isto, um resultado importante parece ser que o NICS representa um modelo que não se conseguiu reproduzir com a implantação da Subprefeitura, daí que o elemento tenha sido apresentado como “nostalgia...”. É importante repetir que não se trata de reduzir o alcance do elemento, mesmo porque, outras questões como a autoridade e o foco de atuação presentes na reflexão, podem também ajudar-nos na compreensão a que pretendemos chegar. Salientemos, ainda, outra questão que parece também ter mobilizado o grupo para a escolha desse elemento, a saber, um certo conflito interno ao grupo em torno da valorização do tema, tendo em vista que parte do grupo não viveu essa experiência, mas se agregou a ela somente quando da criação da Subprefeitura. Um parêntese se faz necessário neste ponto. É muito significativo que tenhamos substituído as discussões de temas com especialistas, seguidas de oficinas, pela proposta de sistematização, ora em curso, de modo a incluirmos uma parte do grupo que então se notava ausente e que agora, depois de vencidas algumas etapas do processo de sistematização, novamente se ausenta. Observemos que o grupo que permanece é aquele que participou da experiência do NICS. Isso é uma coincidência? Precisamos interpretar isso! Diante dessa evidência, isto é, que os presentes eram os remanescentes do NICS, surgiram ponderações a respeito da mudança entre o passado e a situação presente, focadas no perfil e na experiência das pessoas; nos grupos existentes antes e depois da implantação da Subprefeitura. Na tentativa de identificar pistas para uma compreensão da experiência, de modo abrangente, e destes processos gerados pelo “projeto FAPESP”, em particular, talvez possamos fazer uso do que Paul Ricoeur denomina de lecture du soupçon, leitura da suspeita3. Esse autor atribui a este tipo de leitura, por exemplo, a genealogia da moral em Marcia Faria Westphal - Instituição: Faculdade de Saúde Pública/USP - Instituição parceira: Prefeitura do Município de São Paulo -Subprefeitura de Capela do Socorro 3 RICOEUR, P. “De L’interprétation: essai sur Freud”, Paris: Éditions du Seuil, 1965. 534p. 3 Nietzsche, a ideologia em Marx, os ideais e ilusões em Freud, que “representam três procedimentos convergentes da desmistificação”4. Talvez seja o caso, então, de suspeitarmos do que se tem colocado sobre o NICS, de desmistificá-lo, de acolher o que está dito e acrescentar o que supostamente está presente, mas não dito. Não há como suspeitar do que o NICS representou enquanto criação e desenvolvimento de um modelo de gestão, nem tampouco da energia que ele conseguiu canalizar e, por assim dizer, direcionar. A suspeita deva talvez recair sobre o que, hoje, ele representa para o grupo. Surgiram, como já dissemos, ao longo da reflexão, várias questões relativas ao “grupo”, relativas à “manutenção do grupo” etc. Resta, entretanto, sabermos de que grupo se está falando. Temos um grupo que é composto pelo conjunto da Subprefeitura e temos um grupo que compõe este conjunto e que é remanescente do NICS. Para este último já esboçamos, e agora ratificamos, uma compreensão sobre o trânsito de seus participantes ao longo do período que vem de 2001 aos dias atuais, no texto “Senhores Passageiros do Capela para...”5, que distribuímos aos participantes do processo de sistematização da experiência. É fato que, nessa interpretação, os demais atores que formam o conjunto da Subprefeitura desempenham um papel coadjuvante. Para estes, certamente o NICS quer dizer, ou significa, outra coisa. E eles podem estar certos! Cogitamos que o NICS é, para o conjunto da Subprefeitura, uma clivagem do tipo turn-on/turn-off. Ele é a chave que liga, ou desliga, as atenções e a “iluminação”. É ele que prescreve os eixos de atuação e metas que o grupo constituído com a implantação da Subprefeitura deve acolher e perseguir. É ele que, sob “irrefutável legitimidade”, proscreve possíveis alternativas. É ele que confere, a alguns, capacidades, saberes e “experiência”. Ele é, em suma – também e portanto -, uma afirmação do que Marilena Chauí denomina de “discurso competente”6, isto é, uma afirmação de “que não é qualquer um e de qualquer lugar que sabe e pode falar o que quiser. Portanto, só aquele que está investido e 4 RICOEUR,P. op.cit. p.42. Também diz Ricoeur, na página 43, que esses três mestres “começam pela suspeita concernente à ilusão da consciência e continuam pela estratégia (artimanha) da decifração; os três, finalmente, longe de serem detratores da ‘consciência’, visam à extensão dela mesma”. Sendo minha a culpa por eventuais erros de tradução. 5 FERNANDEZ, J C A “Senhores passageiros do Capela para...”, 2004, mimeo. 6 CHAUÍ, M S. “O discurso competente e outras falas”. SP, Moderna, 1969. 4 ocupa uma posição numa organização burocrática, estará legitimado e terá a competência definida para dizer-enunciar um discurso também definido ao qual é atribuída uma autoridade institucionalizada”7. Assim, pode não ter sido mera coincidência termos escolhido o aprofundamento do elemento “nostalgia do NICS” e vermos se reduzir o grupo de reflexão, pois, como já dissemos, esta chave também pode servir para desligar a atenção. Mais do que isso, e como já afirmamos em outra ocasião8, o inconsciente nos prega peças, como esta de trazer à tona o melhor e o pior de nós mesmos, isto é, o “como fizemos bem” e o “como acreditamos que mais ninguém possa fazê-lo”. Na verdade, o que ao final fica evidenciado é a força do elemento escolhido, sobretudo pelo que ele revela sobre a dinâmica dos grupos, tal como ela vem sendo tratada a partir da socioanálise e da antropo-psicanálise institucional9. Com ele poderíamos refletir acerca dos dois níveis de comportamento observados nos grupos, a saber: aquele que define a tarefa – o das logotécnicas, dos discursos competentes, do “racional”, do consciente, enfim, do praxeológico -; e, aquele das emoções comuns – campo dos processos psíquicos primários e da circulação fantasmática inconsciente. Na perspectiva apontada por abordagens desta natureza que, segundo nos parece, podem ser pistas profícuas para a compreensão da experiência, este segundo nível determina os modos de associação instantânea e involuntária que se estabelecem no interior dos grupos – os chamados “pressupostos de base” –, a saber: dependência; combate/fuga; e, emparelhamento10. Grosso modo, o sonho de um chefe inteligente, bom e forte e a constituição de subgrupos são expressões desses modos de associação. Nos perguntamos se não é, também, disso que estamos tratando quando refletimos sobre o NICS. Resta-nos ainda, uma preocupação com o que poderia uma abordagem deste tipo parecer exógena ao processo desencadeado pelo projeto Fapesp. Pode parecer verdadeiro que, por tratar-se de gestão integrada e participativa de políticas, devêssemos nos concentrar no exame das técnicas empregadas para esse fim. Entretanto, a esse respeito, 7 BADIA, D. D. “A questão paradigmática e suas dimensões”, 2004, mimeo. 8 BADIA, D.D. e FERNANDEZ, J.C.A. “Intersetorialidade e polarização paradigmática”. In: Paulo Fernando Capucci e Roberto Nami Garibe Filho (orgs.) Gestão local nos territórios da cidade: ciclo de atividades com as subprefeituras, São Paulo, Mídia Alternativa: Secretaria Municipal das Subprefeituras, 2004, pp. 124-132. 9 José Carlos de PAULA CARVALHO no texto “Pedagogia do imaginário e culturanálise de grupos: educação fática e ação cultural”, in Revista da Faculdade de Educação USP, São Paulo, v.15, nº2, julhodezembro de 1989, pp.133-151, apresenta e articula diversos conceitos e referências bibliográficas a esse respeito. É também deste texto que retiramos os fundamentos teóricos sobre grupos que apresentamos a seguir. 10 BION, W.R. “Recherches sur les petits groupes, apud. PAULA CARVALHO, J.C., op. cit. poderíamos, já em um primeiro momento, recuperar parte do que vimos constatando no estudo da intersetorialidade. Com relação a ela dissemos em outra ocasião que a busca pelo novo não se resume à redação de “manuais ou receituários de boa gestão”, mas exige um reexame do modo de conhecer, de pensar e de se colocar frente a papéis, posturas e práticas empreendidas.11 Apontávamos, então, o quanto cada indivíduo poderia contribuir para o desenvolvimento das práticas intersetoriais lançando um olhar sobre si mesmo. O que apontamos, agora, é que o grupo, lugar onde se operam essas práticas, deve fazer o mesmo. A esfera técnica no grupo pode avançar se a esfera fantasmática for abordada. Como nos diz Anzieu: “As relações entre os seres humanos se ordenam em torno de dois pólos, a técnica e o fantasma. O pólo técnico – quer se trate das técnicas do corpo, do pensamento, da expressão, da produção – está ligado ao desenvolvimento do sistema percepção-consciência e à realização de tarefas comuns ou em comum; permite a circulação dos bens e das idéias. O elo inter-humano inconsciente, no casal, no grupo, na vida familiar e social, resulta da circulação fantasmática; ela estimula, inflexiona, desvia ou impede as realizações técnicas reais; reúne ou opõe os indivíduos mais nos modos de ser e de sentir, que nos modos de agir; procura provocar a comunalização da realização imaginária das ameaças e dos desejos individuais inconscientes”.12 Embu-Guaçu 08/09/2004 11 MENDES, R. e FERNANDEZ, J.C.A. “Práticas intersetoriais para a qualidade de vida na cidade”. In Paulo Fernando Capucci e Roberto Nami Garibe Filho (orgs.) op. cit. 12 ANZIEU, D. “O grupo e o inconsciente: o imaginário grupal”. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1993, p.179.
Link